Revelações de um corretor de negócios muito amigo de governos

“Rei do Petróleo – A Vida Secreta de Marc Rich”, Daniel Ammann. Novo Século. 326 págs., R$ 39,90

Personagem-chave na criação do mercado spot de petróleo, Marc Rich era reverenciado, desde os anos 1970, como um dos mais bem-sucedidos corretores de commodities. Até que, em 1983, foi acusado, nos Estados Unidos, de sonegação fiscal e de fazer negócios com um país inimigo, o Irã (entre outros). Rich fugiu para a Suiça, de onde nunca mais voltou, apesar de tentativas do governo americano para extraditá-lo, e mesmo de sequestrá-lo. O livro de Daniel Ammann, jornalista suiço, é o resultado de mais de 30 horas de conversas com Rich, que lhe falou sobre sua vida e seus negócios com petróleo, nos quais esteve envolvido até os anos 1990. Ammann também ouviu colaboradores, amigos, parentes e funcionários do governo americano.

Estruturada como uma grande reportagem, a biografia não chega, no entanto, a apresentar uma versão definitiva sobre as acusações feitas a Rich. Nem era esta a intenção de Ammann, que afirma, no livro, pretender levantar “um questionamento acerca dos inúmeros erros cometidos de ambos os lados”. Entre as fontes consultadas por Ammann estão, além do próprio Rich, Morris “Sandy” Weiberg, ex-assistente do então promotor Rudolph Giuliani, tributaristas e advogados.

Enquanto os especialistas apontam falhas no processo movido por Giuliani em 1982, Rich admite para o jornalista que sempre tentou “minimizar o pagamento de taxas”, enviando seus lucros para a Suíça, onde os impostos são mais baixos do que nos Estados Unidos. Rich atribuiu sua crucificação pela opinião pública à perseguição, pela “elite dominante”, de um judeu independente e bem-sucedido, que afirma jamais haver cruzado “a barreira da legalidade”. Ammann acredita que a posição de Rich tenha sido prejudicada também pelo descuido com a própria imagem, em comparação a Giuliani, apontado como um talento no uso de recursos para autopromoção.

Entre os mais fortes argumentos levantados contra Rich estava sua insistência em não seguir as determinações de embargo do governo americano para o comércio com o Irã, Cuba e África do Sul. A habilidade no contato com os fornecedores permitia que Rich fosse bem recebido tanto pelo governo espanhol franquista quanto pelos revolucionários cubanos. Também não teve qualquer problema de consciência em negociar com os sul-africanos durante o período do apartheid. Sua empresa conseguiu firmar acordos com os aiatolás iranianos em plena crise dos reféns americanos, embora tivesse negociado petróleo diretamente com o soberano deposto, Rheza Pahlevi. Nisso ele não estava sozinho. Ammann lembra que o governo de Ronald Reagan vendia armas secretamente ao Irã para financiar a guerrilha anticomunista na Nicarágua na mesma época.

Um tipo discreto – traço comum, segundo Ammann, aos negociantes de commodities, cujo grande trunfo é a habilidade no trato com os fornecedores -, Rich era praticamente desconhecido fora de sua área profissional antes do processo movido pela Receita Federal americana, que não queria apenas que ele saldasse sua dívida, mas que fosse para a prisão. Depois de ter se radicado na Suíça, Rich, belga de nascimento, adotou as cidadanias espanhola e israelense. Jamais voltou aos Estados Unidos, apesar de haver recebido polêmico indulto presidencial no fim do governo de Bill Clinton. O indulto não limpou sua reputação, mesmo depois que ele pagou parte do que a Receita Federal reclamava como devido.

Embora negue que tenha buscado traçar um perfil simpático de Rich, Ammann não esconde o próprio encantamento com o biografado, e pincela sua admiração através dos capítulos, destacando o pioneirismo na percepção de que a globalização chegaria através do comércio de petróleo. Também enfatiza o arrojo do jovem Rich, cuja carreira tomou impulso por sua presença em áreas de conflito, como durante a revolução cubana, em 1959, ou os processos de descolonização da África, na década de 1960.

A grande capacidade de Rich para se adaptar a situações adversas, como aconteceu na crise do petróleo, em 1974, em meio à revolução iraniana, no Oriente Médio, na África do Sul e enquanto se dava a dissolução da União Soviética, se explicaria, segundo Ammann, por suas raízes judaicas e pela diáspora que sua família vivenciou. Fugindo do nazismo, Rich foi morar com os pais no Marrocos, de onde se transferiram para os Estados Unidos. Lá, ele ingressou na Phillip Brothers, uma grande corretora de commodities, de onde saiu, anos depois, para montar, com cinco sócios, sua própria empresa, em 1974.

Rich não foi um “trader” no sentido hoje geralmente dado ao termo, função de alguém que faz a intermediação de negócios, entrando e saindo rapidamente de posições. Sua empresa providenciava acordos de longo prazo entre compradores e vendedores de commodities em grande escala. As margens eram pequenas, mas o volume de negócios, de até bilhões de dólares, elevava seus ganhos a alturas consideráveis.

Não é de duvidar que o perdão concedido a ele pelo presidente Bill Clinton tenha vindo como forma de reconhecimento, nunca declarado, dos favores prestados por Rich aos serviços de inteligência americanos, com informações sobre movimentos dos governos do Irã, da União Soviética e outros países.

source: http://www.valor.com.br/impresso/investimentos/revelacoes-de-um-corretor-de-negocios-muito-amigo-de-governos/

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